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Fúnebre

Sexta-feira pós debate presidencial. Pela manhã, seus olhos inchados refletiam no espelho. Na noite anterior, a notícia do falecimento do avô daquele que tem todo seu amor fez seu chão ruir. Lembrar do soluçar e da falta de ar entre um choro e outro daquele que sempre lhe amparou e pareceu forte como rocha era como um golpe do lado esquerdo do peito. Enquanto vestia-se com peças negras, exalava sofrimento e compaixão pela dor de outrém – que, a essa altura, tornou-se sua também.

Nunca tinha ido a um enterro. Para não mentir, foi a um quando muito pequena, tão pequena que mal se lembrava de todo ritual que o envolvia. O cheiro de flores empesteava a pequena sala que abrigava o corpo. As muitas e muitas lágrimas eram contagiantes, assim como a mágoa. Ouviu da filha do falecido que o sol havia nascido, depois de todos aqueles dias frios, em homenagem a ele.

Foram horas compartilhando a perda e relembrando atos daquele senhorzinho enrugado que já não os faria mais. Mais lágrimas escorreram enquanto falava, mas, principalmente, enquanto via o desespero do companheiro debruçado no caixão.

Afastou-se de todos presentes e alcançou um cigarro, enfim. Fez dele sua válvula de escape, seu prazer em meio à dor. A fumaça cinza apagou o sol.

Da forma mais intensa

Atirou-se com vendas nos olhos sobre a labareda e as marcas aparecem por meio das cicatrizes em sua alma. Calou-se e, desde então, exprime súplicas em silêncio para que o presente faça-se eterno. É neste presente que suas fantasias tornam-se palpáveis, que o ardor lhe sobe dos pés a cabeça, fazendo seu coração rodopiar. É nele também que a saudade dos olhos nos olhos faz-se viva, que o encanto a toca a cada encontro, que o relógio brinca com o tempo, mostrando-lhe as horas iguais aos minutos. Se o passado fez-se esquálido e, por muitas vezes, o sentimento escapou por entre seus dedos, é no hoje que o ama da forma mais intensa que o momento pode suportar.

És pútrido

Aquilo que fez furtivamente corrói tua alma numa dor impetuosa, conspurcando o mais belo de tudo que já pulsou em ti. Tua graça fez-se morta, teus lábios têm gosto de câncer, teu olhar reflete o meio lúgubre em que passaste a viver.
Como negar ao espelho tua fraqueza? Apodreces a cada mentira que contas, a cada beijo que roubas, a cada jura de amor.
Ah, mas quem há de dizer que não amas? Que as juras não são verdadeiras? Tens, sim, palpitando a vontade daquele que te faz bem. Bem como só ele faz.

Pecado e contrição

Apanhou a caneta que fugia da tua mão como o diabo da cruz. Apanhou-a, fez dela parte de ti e, enfim, vomitou todas aquelas palavras que ensaiou enquanto esteve sozinha.
Queria estar embriagada, o álcool levaria a culpa por tuas palavras e gestos mundanos. Não estava, (in)felizmente.
O ambiente era escuro, lembrou, e as janelas fechadas não deixariam que os olhos curiosos vissem por através delas. Por que o medo, então? Havia deixado para trás toda a moral e o desejo fez-se vivo, tomando teu corpo como o fogo que queima o eixo, sem limites, deleitando-se a cada parte que consumia.
Havia algo ali, algo inexplicável. Algo além de teus lábios e línguas e toques que encaixavam-se perfeitamente, como sempre encaixaram. Algo além do que se vê, que só se sente, como já dizia o clichê.
Os anseios fizeram-se palpáveis, mas não o bastante. Odeio esta situação, odeio, pensou. Odeio tornar-me verme como aquele que um dia mortifiquei, pensou de novo. Pensar já não adiantaria.
Alcançou um cigarro, então. Fez dele teu objeto de desejo, de prazer, de ruína. A fumaça cinza apagou o sol.



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