Fúnebre

Sexta-feira pós debate presidencial. Pela manhã, seus olhos inchados refletiam no espelho. Na noite anterior, a notícia do falecimento do avô daquele que tem todo seu amor fez seu chão ruir. Lembrar do soluçar e da falta de ar entre um choro e outro daquele que sempre lhe amparou e pareceu forte como rocha era como um golpe do lado esquerdo do peito. Enquanto vestia-se com peças negras, exalava sofrimento e compaixão pela dor de outrém – que, a essa altura, tornou-se sua também.

Nunca tinha ido a um enterro. Para não mentir, foi a um quando muito pequena, tão pequena que mal se lembrava de todo ritual que o envolvia. O cheiro de flores empesteava a pequena sala que abrigava o corpo. As muitas e muitas lágrimas eram contagiantes, assim como a mágoa. Ouviu da filha do falecido que o sol havia nascido, depois de todos aqueles dias frios, em homenagem a ele.

Foram horas compartilhando a perda e relembrando atos daquele senhorzinho enrugado que já não os faria mais. Mais lágrimas escorreram enquanto falava, mas, principalmente, enquanto via o desespero do companheiro debruçado no caixão.

Afastou-se de todos presentes e alcançou um cigarro, enfim. Fez dele sua válvula de escape, seu prazer em meio à dor. A fumaça cinza apagou o sol.

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