João Paulo, de 19 anos, fez ginástica olímpica desde os seis. Hoje, depois de conquistar muitas medalhas aqui no Brasil, ele se apresenta no Cirque du Soleil
Dos rodopios na barra da academia para os aplausos do mundo. Esse poderia ser um resumo da trajetória de João Paulo Querino de Souza, que aos 18 anos deixou os solos brasileiros para conquistar outras milhares de plateias com a trupe do Cirque du Soleil.
A paixão pelo esporte veio do berço: seu pai é mestre de capoeira e sempre o incentivou a praticar exercícios. Além disso, desde pequeno, quando ia com sua mãe buscar o irmão mais velho no ginásio em que treinava ginástica olímpica, João divertia-se com os aparelhos: “Enquanto a gente esperava por ele, eu sempre ia para a cama elástica e aos colchões brincar e fazer cambalhotas”, diz.
Aos seis anos de idade, João fez um teste para entrar na escolinha de ginástica do Ginásio Bonifácio Cardoso, em Guarulhos: “Comecei praticando duas vezes por semana, uma hora por dia. Depois de muito treino, fui o segundo colocado no campeonato brasileiro infantil em 2000, terceiro colocado também no brasileiro infantil de 2002, segundo em 2003 e campeão em 2004. Foi quando surgiu a oportunidade de treinar no Esporte Clube Pinheiros, um dos maiores clubes no Brasil que apoia o esporte amador”.
João Paulo treinou no clube por quatro anos. Nesse meio tempo, ele conta que ganhou educação em um bom colégio particular, alimentação, moradia e ajuda de custo, além de todo o suporte técnico para continuar treinando e seguindo em busca de seu maior objetivo: tornar-se um ginasta de sucesso. Mas, no começo de 2008, o inesperado aconteceu: João sofreu um acidente e teve de passar por uma complicada cirurgia no pulso. “Eu sabia que seria muito difícil continuar na ginástica, um esporte em que o atleta tem impacto a todo o momento nessa região do corpo”.
O sonho, porém, não acabou por ali. Naquele mesmo ano, seu irmão, Paulo Afonso, que já fez parte da seleção brasileira de ginástica artística, recebeu um convite do Cirque du Soleil para o treinamento de um show que aconteceria na Disney de Tóquio, no Japão. Com o irmão já integrante da companhia, João Paulo não se deteve. “Pensei que seria uma porta que se abriria mais fácil para mim, então decidi mandar um vídeo com imagens do meu trabalho à minha amiga Roberta Monari, que estava em Montreal treinando na sede do Cirque du Soleil para o show Saltimbanco. Assim que ela recebeu o material, mostrou para o casting do circo, que, depois de três semanas, perguntou se eu tinha interesse em trabalhar na criação de um novo espetáculo. Era sobre o rei do rock Elvis Presley e se passaria em Las Vegas. Não tive como recusar. Os treinos começariam só em março de 2009, dando tempo para a recuperação completa da cirurgia”.
A viagem para tão longe não assustou o ginasta. “Foi fácil. Que adolescente não quer viajar, conhecer outros lugares e ter experiências novas? Mas, mesmo sendo maior de idade, esperei para saber o que minha mãe e meu pai achavam, se eu tinha carta branca para vir”.
Decidido e com a permissão dos pais, o garoto desembarcou em Montreal no dia primeiro de abril de 2009, onde treinou por quatro meses para a apresentação. Depois, o elenco mudou-se para Las Vegas para continuar os ensaios no próprio teatro em que rolará o grande espetáculo. “Temos que estar cem por cento para o show, que estreia dia 19 de fevereiro desse ano. Meu número envolve os aparelhos barra fixa e paralelas simétricas, que são da ginástica olímpica. Também faço acrobacias em um estilo Le Parkour e danças, muitas danças. Às vezes, cada treino chega a durar até 13 horas”.
Quase um ano depois de começar sua nova vida, João diz estar mais feliz e satisfeito que nunca. “Tem sido uma experiência maravilhosa. Estou aprendendo coisas novas tanto profissionalmente como pessoalmente. Aprendi a falar inglês e a resolver todos os meus problemas sem ajuda dos meus pais ou de qualquer outra pessoa. Agradeço a Deus todos os dias por essa oportunidade, aproveito o máximo e tento fazer e mostrar o meu melhor em todas as minhas atividades”.
Quanto à saudade, o atleta diz que sente muita falta do Brasil, principalmente de casa, dos pais e dos amigos, entretanto, emocionado, conta que “a oportunidade de trabalhar como um artista, fazer shows, olhar nos rostos dos espectadores e ver que você os faz felizes por um momento, seja sorrindo ou assustando, deixando-os nervosos de ver a altura que você vai pular e toda essa magia, não tem preço”.
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