Obras d’OSGEMEOS invadem o Museu de Arte Brasileira

Por Natália Karpischek

Imagine adentrar, ao menos por algumas horas, em um mundo em que as cores saltam-lhe os olhos, em que os sons entram em harmonia com as formas e o cotidiano é contado sob formas de poesia e crítica. Esse é o universo d’OSGEMEOS, os grafiteiros que têm ganhado os muros do mundo e seus museus, e que pode ser conferido no MAB, em São Paulo.

A exposição Vertigem chegou a São Paulo no dia 25 de outubro e se instalou no Museu de Arte Brasileira, na FAAP. Nele, foram agrupados dezenas de trabalhos da dupla Gustavo e Otávio Pandolfo, mais conhecidos como OSGEMEOS. O grafite dos irmãos que, antes, tomavam conta dos muros da cidade, invadiram espaços que outrora eram reservados apenas para a “alta cultura”.

A pequena sala nos interiores da universidade foi tomada por murais gigantes, pinturas sobre portas, janelas, caixas de som e, até mesmo, esculturas interativas. Ao passar pela entrada, foi difícil escolher para onde direcionar o olhar – os olhos ansiavam por absorver e digerir tudo ao mesmo tempo, cada detalhe feito pelo spray, cada paetê colado na roupa dos personagens urbanos de pele amarelada.

Durante o primeiro dia de exposição, o Diretriz conversou com Marina Coratto, 23 anos e universitária, que conta que sempre foi fã da arte de rua, principalmente do grafite. Quanto à exposição, Marina diz que “não vemos só o lado grafiteiro, mas também os artistas plásticos irmãos, que fazem uso de variados tipos de material pra dar efeito às obras… acho que, mesmo conhecendo sua street art, ver tudo isso traz um novo olhar sobre todo o potencial dos gêmeos”. E o que faz dos gêmeos serem OSGEMEOS? “Acho que a mistura dessa ideia de retratar o povo meio caricaturado, o povo humilde do nordeste, a galera da periferia de São Paulo, tudo com a uma forma única de desenho. Tudo isso faz deles serem o que são”, explicou.

Danilo Taqueto Fernandes, 20 anos e que também é inserido no mundo das artes, fazendo ilustrações e pinturas sobre telas, diz: “Eu já conhecia grande parte dos trabalhos expostos aqui, mas o que me chamou muito a atenção foi a disposição adotada. As coisas amontoadas assim dão muito a cara de rua, e não de exposições convencionais, em que tudo é alinhado de forma perfeita”.

De fato, a disposição das obras não poderia ter sido outra. Foi como se o título Vertigem rodeasse a todos os espectadores que olhavam ao redor – e cada olhar era invadido por reflexões que, por sua vez, transbordavam sentimentos únicos.

O artista plástico paulistano Magoo Felix nos conta a sua impressão: “Eles, como sempre, atingiram algo fora do comum com o seu ‘trampo’. Entrando na sala da exposição, você parece ser transportado para o mundo deles, é uma experiência única e, para mim, soa como uma aula de arte”.

Magoo é amigo da dupla há anos e não esconde o orgulho para com os colegas. “Eu vejo suas obras com um carinho especial, com um toque de nostalgia. Ver toda essa evolução me dá orgulho de tê-los conhecido lá atrás, de ter participado e visto de perto toda essa mudança. É tudo muito perfeito, os traços, os cenários, os detalhes das roupas, os suportes usados. Com certeza é algo que passa muitos sentimentos diferentes para quem observa”, diz.

A transição dos muros aos ambientes protegidos paira por entre as entrelinhas de eventos como este. A professora de Estética e História da Arte da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mirtes de Moraes, considera que “o grafite mostra o espaço público como um meio de comunicação. A arte deve ser pensada num diálogo com a história, e o que assistimos hoje? A rua como um espaço múltiplo: pessoas trabalhando, passeando, dormindo, carros parados e em movimento, publicidade, lixo, barulho. Tudo isso é colocado por esses artistas que deixam traços dessa contemporaneidade. Nesse sentido, o grafite dos seus mais amplos tipos são formas de intervenção e de transgressão desses espaços. Digo transgressão no sentido positivo do termo, numa contravenção à cidade formada com uma ideia de norma e regras desde os semáforos a construções. Tendo isso em vista, acho a exposição algo muito significativo, pois tende a ultrapassar os muros, rompendo paradigmas”.

Vinicius Rafael da Silva, mais conhecido como Popó, de 28 anos, é restaurador de obras de arte, mais especificamente de quadros a óleo, há quatro anos, além de grafiteiro e convidado pela MTV para escrever no site da emissora sobre arte e customização (www.mtv.com.br/upgrade). Quando perguntado acerca de uma possível descaracterização do grafite quando exposto em galerias de arte, sobre a perca ou não da pulsação da cidade e a ideia de contestação, Popó nos conta que “O graffiti da rua é na rua, significa ação na rua. Sempre aprendi isso e cresci pintando na rua com essa idéia. Quando você sai pra pintar, você corre vários riscos e, dentro do graffiti, existem vários estilos de pintura, que vão desde a pixação até um graffiti superproduzido com personagens, e tudo isso independe do que você vai pintar. Você fazendo na rua sem permissão, isso é graffiti! É sair de noite pra fazer um ‘rolê de pixo, tag, bomb’ e sair correndo sem terminar, se preciso. Quando o graffiti vai para a galeria, acho que vai somente a essência da arte do graffiteiro, não o graffiti de rua. Você vai lá pra ver o ‘trampo’ do cara, a evolução dele como artista e criador de arte, e se ele começou pintando na rua, criou um estilo único de pintura e sentiu vontade de passar isso para uma tela ou qualquer outra plataforma, ele tem mais é que explorar isso e evoluir”.

O ponto também foi comentado por Magoo: “O grafite brasileiro sofreu uma mutação muito grande de uns tempos para cá. Antigamente, a gente era um reflexo dos gringos e da cultura hip hop. Hoje, o Brasil é considerado o novo berço do grafite; São Paulo, mais especificamente. Alguns dos nossos artistas saíram das ruas e foram parar em paredes de grandes escritórios, de casas de colecionadores, em anúncios, em roupas. Hoje, o grafite deixa de ser uma arte somente da rua para se tornar tendência de arte, presente até em bienais sérias”.

SERVIÇO:

Data: de 25 de outubro a 13 de dezembro

Local: Museu de Arte Brasileira da FAAP

Endereço: Alagoas, 903 – Higienópolis

Horário: de 3a a 6a feira, das 10h00 às 20h00

Sábados, domingos e feriados, das 13h00 às 17h00

Fechado às 2as feiras

Mais informações: (11) 3662-7198

Do concreto para a vida real

Cobertura do espetáculo O ESTRANGEIRO, feita por Annie Shioli e Tainah Medeiros

O Vale do Anhangabaú, no dia 12 de novembro de 2009, serviu de palco, a céu e portas abertas, para mais um espetáculo que comemora o Ano da França no Brasil. Dessa vez o evento uniu o grupo teatral de rua francês Plasticiens Volants com os grafiteiros brasileiros Gustavo e Otávio Pandolfo, os OSGEMEOS.

O casamento artístico dos franceses, que criam marionetes infláveis gigantes e dão vida a elas, com os irmãos grafiteiros resultou em um boneco chamado de “O Estrangeiro”.

A fisionomia não negava, ele era realmente filho d’OSGEMEOS. Com um corpo grafitado em amarelo, o Estrangeiro saltava para a vida real, demonstrando uma característica sutilmente pretensiosa, deixava a parede de um prédio para ter o tamanho de um. “Foi muito emocionante ver nossa obra virar um boneco tridimensional de 20 metros de altura”, comentou Pandolfo, um dos irmãos em entrevista ao site França.Br 2009.

O boneco, preenchido com ar e orientado por uma marionete em formato de mundo dava seus primeiros passos no Brasil. O espetáculo que passou por tantos outros lugares ainda não conhecia tamanha receptividade e carinho. O diretor do grupo francês, Marc Bureau exaltou ao França.Br 2009 que: “O público brasileiro se envolve mais com o espetáculo do que o europeu. Fiquei realmente feliz e emocionado. Além disso, ainda foi super cuidadoso com nossos bonecos”.

Mais olhares curiosos se juntavam ao espetáculo que fazia do Estrangeiro o protagonista de uma história de vida encenada e testemunhavam a chegada de novos animais personificados, cada um com sua representatividade, que tinham a intenção, de forma boa ou ruim, de transmitir alguns ensinamentos para a vivência do boneco. A primeira a aparecer foi a mosca, que tinha o intuito de ensinar ao Estrangeiro a autonomia. Depois, do meio do jardim, surgia a serpente, que se enroscava nas pernas do boneco, tentando sabotá-lo. Ela representava as dificuldades a serem vencidas. Enquanto tentava derrubá-lo, a serpente não contava com a chegada dos bonecos em formato de pássaros, que surgiam para gladiar com as figuras más e, por fim, trazer a calmaria.

O espetáculo que parecia estar terminando ainda reservava queima de sinalizadores junto a uma chuva de papeis azuis – esta que simboliza a transformação unida a cor da tranquilidade, atribuía um significado: a partir dali, a vida tomava nos rumos muito mais calmos.

Diferente de alguns espetáculos, o palco que era no meio da plateia possibilitava que artistas e público interagissem ainda mais. Talvez tenha sido isso que deixou, aparentemente, os brasileiros ali presentes muito mais eufóricos, modificando possíveis pensamentos introvertidos em relação a tal arte, contradizendo o que o gêmeo Pandolfo disse na mesma entrevista: o Brasil ainda é tímido em apresentações desse tipo.

Os grafites, que aos olhos dos brasileiros eram somente estáticos, tomaram vida.

3 Respostas to “Obras d’OSGEMEOS invadem o Museu de Arte Brasileira”


  1. 1 ressenfelder Novembro 27, 2009 às 6:34 pm

    Talento, hein? E as fotos?

  2. 2 popó Novembro 27, 2009 às 7:44 pm

    não pode fazerz fotos na exposição, mas como nóis é agilizado eu tenho algumas…! aehhaehae

  3. 3 vt. Fevereiro 3, 2010 às 6:24 am

    Dai olhei teu orkut e corri pras fotos (situação mais natural), mas eu vi que tinha alguma coisa especial e resolvi voltar pro perfil (coisa rara de acontecer). Descobri a forte vontade de se expressar e cliquei no link do blog. Recorri aos textos mais curtos, uma vez que está tarde e a vista já embaça. Muito bom, omedeto!


Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s





Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.